Como se enterra o que está vivo?

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Como se enterra o que está vivo?

20
jun,2011

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Esse canto é pela vida e pela morte. Afinal, o fim de uma é sempre o início da outra.
Quando eu me levantei depois de ter feito aquela prece, fiquei pensando em como faria aquilo, como enterraria algo vivo, como eu tinha prometido pra mim que enterraria.
É bem verdade que ele facilitava demais aquele velório, quando olhava pra mim com aquela cara e falava com a mesma voz mansa como se aquela morte sem a presença da morte não lhe afetasse em nada. Juro que as vezes eu sentia vontade de ir lá e o esbofetear, bater até chorar, não ele, eu, e fazer ficar mais fácil aquele desapego, mas eu não conseguia. Queria mandar ele a puta que o pariu, mas não conseguia… Ele, que sempre tinha tido cor de doce, cores, mesmo nos momentos mais críticos, tinha agora um gosto que eu não sabia definir, nem odiar. Não era de jiló, que odeio, nem de jurubeba, que não suporto. Era de não sei o quê, de fome sem vontade de comer. As vezes o gosto parecia com isopor, de nada, e mesmo descendo rasgando pela minha garganta, eu preferia e escolhia engolir. Uma parte do meu eu queria deixar tudo ali e partir, vazar, virar fumaça, abraçar o mundo e falar “vai se ferrar”, mas, a outra, aquela que tomava conta dos 90% de mim, queria ir lá, deitar naquele colo mais uma vez, dizer um monte de coisas sem nexo e ainda assim, com total sentido e sorrir, rir aquele meu riso besta que sempre se abria quando a gente se permitia. Nesse momento eu o odiava. O odiava e odiava também a mim, por ter me permitido algo que eu teria que enterrar, mas, nada mais se podia fazer. Voltaríamos para as nossas gaiolas bonitas e de poses puritanas.
Desci vagarosamente a rua que me levaria para onde ele morava em mim. Passei dois dias cavando a tal vala, o tal túmulo. Quando chegou enfim a hora de jogar aquilo que eu nunca chamei de amor naquele chão sujo, eu o abracei forte e olhei pra ele ali, em mim, tão lindo, tão tudo errado e certo e sem coragem de fazer aquilo com ele, fiz comigo. Deitei naquele chão frio e joguei terra, era eu deitada, e eu enterrando. E num misto de ódio, revolta e todo o tipo de sentimento sincero que eu me permiti sentir me prometi que aquilo de meu enterrado morreria pra sempre, e dessa vez eu jamais andaria conscientemente onde meus pés – e coração – fossem conhecer o fim.
Entre mortos, feridos, emputecidos, enraivecidos, tristes, salvaram-se todos. E como dizem por aí, foda-se o resto. A vida ainda está aqui.
Mas uma coisa eu não posso negar: Aquele filho da mãe faz uma falta maior que eu jamais poderia imaginar e eu queria tanto, mas tanto que ele ficasse aqui, mesmo que doendo, que o que eu precisava neste momento, era mesmo, sepultar tudo aquilo de mim.
“Wish You Were Here – Pink Floyd “
Camila Lourenço

Nossa!
Camila…
tenho que concordar com as outras leitoras,suas palavras são tão plurais…
nos encontramos nelas sem tirar nenhuma!

*Parabéns!*
“Como se enterra o que está vivo?” =(
Sou mais uma a perguntar com raiva a ponto de mandar aquele alguém para aquele lugar.

Rê Franco disse:

como eu revivo uma historia minha cada vez que leio um dos seus textos. . .me vejo em tudo, em cada detalhe. . .como eu quis sepulta-lo e me sepultar por ter me entregado a uma historia que eu sabia que teria fim. . .
esse blog é fantastico

aguardo sua visitinha

beijos

Juliana Alves disse:

Querida, como todo dia estou aqui, e é impossível não estar, pq todos os dias venho aqui saber o que vc intuiu e publicou sobre meu momento de vida e meus sentimentos..rs E sempre me surpreendo com as maravilhas que vc escreve.Então não podia deixar de homenagear-lhe, tem um selinho lá no meu blog pra vc! Bjs! =*

Sabe, uma forma de enterrar é lembrar exatamente daquilo que nos machucou e ver com quem nós estávamos se relacionando. Sofri uma enorme decepção no ano passado. Doeu, doeu, doeu… O que eu fiz? Comecei a me lembrar só o que ele me fez de mal (tinha muita coisa), foi ai que comecei a enterrar ele e comecei a me valorizar. Beijinhos.

Juliana Alves disse:

Exatamente assim, vou me repetir… Vc anda me escrevendo… 😉 É, tem momentos que não adianta seguir mais o amor, que já está falando baixinho, em meio a dor e outros sentimentos afins, quando o outro não quer mais avivar esse nosso amor, nos curar, pegar em nossas mãos e construir algo maior; sozinhos não conseguimos lutar… Só há que se bater em retirada e deixar td pra trás. Enterrar em nós o que já foi vida, e arrar a terra, fertilizá-la com outros sentimentos, principalmente amor-próprio, tornando o terreno do nosso coração fértil novamente a semente do Amor e outros sentimentos bons, pra que possamos florir outra vez sorrisos, levezas, cores e luz de uma vida doce e renovada! Bjs! =*