Junte seus cacos

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Junte seus cacos

15
dez,2015

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Para ler ao som de:

“Não se deve tentar impedir tudo de acontecer.
Às vezes, devemos esperar ficar sem jeito.
Às vezes, também, devemos aceitar a possibilidade de ficar vulnerável diante das pessoas.
Às vezes isso é necessário porque faz parte de você chegar a parte seguinte de si mesma, no dia seguinte.”

|Cecília Ahern|

 

Às vezes tudo que a gente quer é que apareça alguém e resolva nossos problemas, nos diga o que fazer e nos tire o peso inigualável do livre-arbítrio.

Um abraço pra resolver, um amor pra aquecer, alguém que nos salve. Que nos ouça, cure e tire da lama como um bombeiro que salva quem está se afogando. Alguém pra nos curar de nós e nos livrar da barra de sermos nós mesmos.

E nesse desespero louco de tentar saber o que fazer, de ter a quem correr, ter um super-herói no bolso, fazemos sucessões de cagadas porque simplesmente não dá pra ninguém correr nossa estrada por nós.

Eu já quis me afundar em abraços, e ver o dia amanhecer ouvindo conselhos, encontrar a solução num clique de mensagem e encontrar o fundo do meu foço em pileques regados a lágrimas. Não encontrei. Fui apenas absorvida por humanos repletos de problemas como eu, que ansiavam se sentirem plenos, como eu, e que buscavam nas conversas e risadas as lacunas perdidas da própria vida.

Seria maravilhoso se quem nos abriu a porta da vida nos deixasse bilhetes de orientações no decorrer do caminho, como João e Maria deixaram migalhas na floresta. Mas as vezes acredito que mesmo que eles tivessem deixado, mesmo que víssemos, não enxergaríamos. Algumas dores fazem parte do caminho. Alguns arrependimentos fazem parte do aprendizado. Algumas perdas vêm para enriquecer a história.

Somos um corpo fragmentado que vai se encontrando e encaixando a medida que o tempo vai correndo, e as pessoas, por nós, passando, ficando, levando. Mas infelizmente, ninguém é capaz de juntar nossos próprios cacos além de nós mesmos, e muitas vezes a conexão só vem muito tarde ou quando o sol da aurora já começa raiar.

Endurecer, não sentir, não expressar, tocar a vida. Todas essas são regrinhas que vamos aprendendo, e com elas, nos perdendo. Como diria Antoine de Saint, “É preciso que suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas.” E quando penso, tenho certeza, que embora teorizar seja mais fácil que viver, tenho certeza que nenhuma lagarta perde sua essência no caminho da transmutação. Quem dera fôssemos como as lagartas, que mesmo quando o fim surge como dia, não param de se mover até sobreviverem e descobrirem que após o fim, vem algo melhor do que a realidade que tanto lamentaram ao perder.

Mas nós, nos inspiramos demais nos adultos bem resolvidos que nos cercam, que nada temem e tudo sabem, e começamos nos envergonhar de nossa limitação tão necessária para o nosso desenvolvimento, tão preciosa para nossa pequenez, que apesar de minúscula, é o gene que nos faz tão importantes em nosso universo particular.

Se eu pudesse pedir pra mim e pra você que me lê um simples pedido de natal e ano novo, eu nos pediria menos medo de errar, menos resignação para com as fôrmas que a rotina vai nos oferecendo e mais coragem pra catar nossos cacos, viver nossas dores e nos abraçarmos de nós.