Quando descobri o mundo

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Quando descobri o mundo

13
mar,2015

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Pra ouvir ao som de:

As vezes eu achava que talvez tivesse perdido a vocação pra essa porcaria de amor.  Era tanto medo da decepção, tanta insatisfação comigo mesma que me parecia muito mais prático abrir logo as pernas, dar-lhes logo o que queriam e seguir infeliz pelo mundo vivendo a minha ausência de sentido. E pra falar a verdade, foi assim durante um bom  tempo. E seria assim até hoje, se ele não tivesse aparecido.

É bem verdade que quando ele surgiu eu quis entrar-lhe logo na carne pra acabar com aquilo logo de uma vez. Mas parecia que ele sabia, que ele premeditava minhas intenções, e me enrolava dia após dia, segundo após segundo. Se demorava na hora de rir, de falar, de passar as mãos no cabelo e deslizar os dedos pelo meu rosto. Meu rosto! Deus, ele deslizava os dedos pelo meu rosto e o oxigênio ia acabando a medida que ele ia descendo com suspiro nesse gesto simples. Filho da puta! Golpe baixo do caramba rir, passar as mãos pelo cabelo e depois, tocar em mim com calma. Eu ainda desconfio que ele queria me causar algum infarto, só isso justificasse sua calma diante da minha pressa, seu carinho diante do meu desapego, sua falta de consumação diante da minha vontade de passar logo para a próxima carta do baralho. E eu não sei se ele queria me matar do coração, só sei que ele fez coisa muito pior com aquele jeito gostoso e horrivelmente irresistível de ser. De repente eu me vi tendo fé. De repente me vi tendo expectativas para o dia, a noite, a tarde, qualquer coisa que ele estivesse. Vi meu coração disparar só de lembrar da sua boca naquele sorriso bobo. Me vi fazendo planos e me demorando na entrega só para o ter mais um pouquinho. Senti cada célula do meu corpo viva com seu toque, jorrando desejo e amor pelos poros e cada partícula mais escondida e obscura. E me dei conta que o que eu precisava era só daquilo. Só precisava daquela dose pra querer ficar em qualquer lugar. Só necessitava daquele toque pra entender que o que eu precisava mesmo era de amor. Só amor.

Ele veio, me tirou do meu mundo, me levou pra vida e me fez querer muito mais que só toque, beijo e abraço. Ele me fez querer ficar.

Nós vivemos um romance louco e avassalador por uns três meses, e por uma briga besta sobre katchup, ele voltou pras bandas de onde tinha vindo e eu fiquei no mesmo lugar onde estava.

Talvez coubesse qualquer xingamento baixo para lhe descrever, por ter vindo, me tirado do meu cubículo de vidro e trago para o mundo, mas eu seria hipócrita se isso o fizesse.

Quando ele veio e me tirou do meu mundo, me salvou a vida e obrigou a ver tudo que eu tinha aqui.

Hoje em dia trocamos emails com confidências e casos inusitados. Eu tenho uma vida sexual ativa em 7 dias dos 7  que a semana é feita. Talvez até esteja apaixonada, mas dessa vez não tenho mais pressa. Estou me deixando descobrir – e ficar.

Entender e respeitar o valor de cada rastro

deixado em nossas vidas por quem não ficou

talvez seja a forma mais serena de abraçar o amor

e perceber o que em nós ele deixou.