Não quero ser metade, como a banda de uma laranja abandonada sob a mesa. E eu não sou metade, mesmo que já tenha me partido tantas vezes, continuo inteira. Sou eu por completo, com manias e defeitos, cicatrizes e lembranças. Mas sou eu. Então não me queira metade, não me venha com metades, não seja metade. Sem essa de que eu sou o pedaço que te completa, porque às vezes completar a mim mesma já é difícil, que dirá completar o outro. 

Eu não sou metade, feito um copo ao meio, esperando alguém bebê-lo ou filosofar se ele está meio cheio ou meio vazio. Eu sou um copo que cabe o mundo, qualquer mundo, mas o mundo que eu escolho.

Eu mudo de opinião e o que me fez rir ontem, talvez me cause asco hoje. Mas o que sou hoje veio através do inteiro que fui ontem.

Entre cacos, cicatrizes e pegadas, eu sou um universo inteiro sendo apenas eu.

Então não me queria como metade. Não me peça o mundo, não me peça que largue tudo. Eu não danço pra te encontrar, eu não canto pra te encantar, eu não me visto só para te agradar.

Acontece que existe alguém que eu amo em demasia, que me ensinou aceitar o que sou, sem deixar nada para trás, ainda que hoje nada mais seja como ontem: eu.

Então, não me venha com metades, esperando eu estar do outro lado do mundo esperando você largar tudo para me achar. Não espere que eu apareça naquele momento que você queria que alguém te salvasse de você ou da vida, porque eu não vou aparecer. Mas será todo esse inteiro que eu sou, e todo caminho que fiz até ser inteira, que me levará até você.

Eu farei uma diferença enorme em sua vida, e você na minha. Juntos seremos melhores do que somos hoje. E eu vou ser como um trampolim que te impulsiona pra cima, um combustível que tira do lugar. Talvez eu seja até mesmo o empurrão que tirará seus sonhos do lugar, que fará seu carro já cansado, pegar. Mas eu não vou te encontrar quando a angústia mal estiver cabendo dentro do abraço da tua solidão. Infelizmente.

Você vai me encontrar quando estiver desavisado, curtindo o retrato que nasceu no porta-retrato dos seus olhos. Quando estiver apreciando o silêncio da tua própria presença, quando a sua companhia já couber dentro da tua paz. Quando sentar sozinho no sofá pra ver seu filme favorito não te causar mais tanto horror. Eu vou te encontrar quando você aprender dar os passos na calçada mesmo se houver apenas o seu pé direito fazendo companhia para o seu pé esquerdo.

Eu vou te encontrar quando você parar de olhar para a vida com ar de procura e começar olhá-la com veneração.

Eu não sou sua metade. Você também não é a minha. E será no dia que você se ver como inteiro, se aproveitar por inteiro e entender que a ampulheta do tempo que te foi dada aqui vai muito além do que só a missão de me encontrar, nesse dia, no dia que você se bastar , nós iremos nos esbarrar.

E aí mesmo vestindo pra me agradar, eu vou pensar em você quando no reflexo eu me olhar, e mesmo amando dançar sozinha, será com você que escolherei dançar e para os seus ouvidos eu vou cantar, porque antes de cantar pra te encantar, um dia eu cantei pra me amar.

Com amor, de mim que não sou metade pra você que é um inteiro: Sua Alma gêmea