Sempre tive uma coisa quase que religiosa com o guarda-roupas.

Quando a existência pesa, desanda, quando me sinto encurralada, confusa, irritada, tepeemizada, vou para o guarda-roupas, jogo todas as minhas roupas no chão pra começar do zero minha arrumação. Claro que isso não é desde sempre porque quando eu era mais nova e morava com os pais, meu quarto mais parecia um ninho de égua. Mas desde que descobri o poder terapêutico de arrumar meu guarda-roupas, nunca mais parei.

Quando começo desejar o entardecer quando o dia mal amanhece, quando deixo de viver pra sobreviver, arrumo o guarda-roupas separando tudo que não me serve, que é apertado ou largo para passar adiante. Se eu sinto que o rumo está bagunçado, vou guardando as roupas por estilo, cor e tamanho. E funciona. Quando termino meu ritual de joga no chão, olha, separa, dobra e guarda, parece que tudo por dentro está arranjado também e eu tenho a sensação refrescante de ar entrando nos pulmões com sabor de alívio.

Nós também somos guarda-roupas, e vamos guardando no peito nossas peças mais raras, novas descobertas, apegos antigos, apertos com antecedentes. Guardando gente que não pesa, gente que nos deixa mais iluminados, que faz a vida parecer sempre uma brisa fresca em manhã de verão. Mas guardamos também quem faz a vida pender pro lado mais obscuro, triste e sombrio. Pessoas que com uma poucas sílabas conseguem destruir livros inteiros de sonhos. E é nossa hora que entra o limpa. É preciso disposição pra jogar no chão nossas certezas e costumes. Espalhar no mente com olhos de sinceridade o que deve e não deve continuar. Pessoas que devem e não devem em nossa história prosseguir. Mas vale o medo, a coragem e o abandono daquilo que nos pesa.Toda história tem seu ciclo. Finalizar, deixar passar, deixar pra trás, faz parte da arte de dar espaço para o novo, respeitar seus limites e ser companheiro do tempo.

Se o ar tá pesado, se o amor parece em qualquer canto que não seja em vocé estacionado, abra o peito. Faça faxina.

Jogue fora, doe, supere, avance.

O amor é feito plantação, não encontra lugar no lixo, e quando, por força e determinação, terras inóspitas desbrava, jamais chega a ser vistoso ou saudável como poderia.

Facilite. Limpe o peito. Arrume o guarda-roupas. Deixe o que pesa na estrada.

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