“Canibais de nós mesmos
Antes que a terra nos coma
Cem gramas, sem dramas
Por que quê a gente é assim?”
|Cazuza|

Eu poderia ficar um milhão de horas beijando-o, que ainda assim continuaria com aquela sede. Era uma fissura que não passava. Uma gana. Uma vontade de pegá-lo pelo colarinho e beijar até fazer doer, até os lábios incharem e depois, desmanchar em soluços num abraço. Eu dormia, sonhava e acordava com ele impregnado no meu corpo, na minha boca, no meu pensamento. Um inferno. Um céu.

Ele tirava a minha paz, o meu chão, e o meu juízo e o que mais me escandalizava, era que, ó meu Deus, como eu achava tudo aquilo bom.
Ele não era nem de longe o cara mais perfeito do mundo. Logo, não havia muita explicação pra tanto querer. Mas, eu também não era o melhor modelo de perfeição que já vi, e acho que era bem aí que a coisa pegava. Devia estar aí a explicação. como se eu reconhecesse nele algo meu, meu de meu, de corpo meu em corpo estranho.
Eu estava perdida. Disso eu já não tinha, nem tenho, mais dúvidas. E o pior era que eu não queria me achar. Não conseguia. Eu queria calar, não falar, deixar confuso, plantar dúvidas, camuflar, mas eu era uma boba sem noção que até calada ficava com aquele olhar que queimava, queimava. Ardia aqui dentro.
Eu queria devorá-lo. Essa é a verdade. Ou queria ser engolida, de uma vez. Qualquer coisa que fosse rápida e indolor. Eu queria overdose dele na minha veia. Morrer de tanto sentir. Morrer pelo excesso e não pela abstinência. E aí estava meu fim, meu castigo, o motivo da minha boca seca, das minhas noites insones. Não sentindo ele, eu não sentia a mim e esse era meu maior inferno.
Me transfundi pra um copo e me bebi e ainda continuei com aquela secura e vi: eu precisava mesmo era me benzer, ou algo assim.
Pensei em chegar num padre pra pedir, ou num pastor, talvez. Mudei de idéia, pedi mesmo foi pra “Ele” e com a maior cara de pau do mundo, ajoelhada, falei:”Deus, por favor, me cura de mim!”
“Por que a gente é assim? – Cássia Heller”
Camila Lourenço