E hoje vou enxergar o céu mais lindo, mesmo que haja nuvens.
Vou olhar a cor da flor mais linda, mesmo que ela esteja desbotada e carcomida.
Vou sentir de peito aberto as melodias que tocam a alma, mesmo que elas tragam lembranças sofríveis.
Hoje vou ser gente sendo só gente.
Soltar as penas que há no coração e deixar crescer as asas novamente. Quem nasceu pra voar não se tranca em cativeiro, muito menos em cativeiro sem céu.
Hoje vou olhar as prisões que escolhi ficar e permanecer somente naquelas que eu fico porque amo. Por que as vezes até estar preso é ser feliz.
Hoje vou sorrir o meu sorriso mais lindo, porque a noite clara clareou e lembrou:
Quem pisaria em cacos de vidro por escolha própria?
Ou quem enfiaria a cabeça num tronco cheio de abelhas?
Ou passaria a língua na sujeira do asfalto depois da enxurrada do esgoto?
A noite clara clareou e lembrou que a mesa é farta.
Que há tanto de tanta coisa boa que mais que insano é injusto com o mundo e com a gente só notar o que não presta. Só notar o que nos faz não querer lembrar.
As noites são escuras, mas as estrelas são sempre brilhantes, ainda que longínquas.
A tempestade é ferrenha mas o arco-íris é estrondosamente belo em seu silêncio.
Os tombos são doloridos e recheados de arranhões, mas nenhum aprendizado é tão eficaz quanto as cicatrizes que eles provocam.
Então, hoje eu vou olhar com olhar de estrela. Com olhar de cor e vou ver a beleza do não dito, do não visto e relembrar que de tudo só permanece e realmente triunfa aquilo que eu acreditar.

Camila Lourenço