Tem dias que a gente acorda com um bolo entalado na garganta. Acorda, respira fundo e ora em pensamento:”Deus, me dê saliva o suficiente para engolir os sapos de hoje.” Mas, nossa garganta é estreita, fina e acaba se machucando, mesmo que o sapo desça por ela todo cheio de baba.

É nojento eu sei. Dá vontade de não engolir ou simplesmente fazê-lo sair pelo mesmo caminho que entrou, mas nem sempre podemos escolher o que “engolimos” e/ou “vomitamos”.
Estou aprendendo a domar meu medo e raiva. Estou aprendendo a domar meus sentimentos e continuar na brincandeira mesmo depois que ela toma atalhos e caminhos que não me agradam. As vezes é preciso topar o desafio e dançar mais um pouco em cima das brasas.
A escrita não precisa de mim para ser escrita e ter leitores para suas palavras, porém, eu preciso da escrita para viver. Meu corpo é pequeno para tudo que há em mim e eu preciso de alguma forma exteriorizá-los.
Estou com cada pedacinho do meu corpo preenchido por sentimentos e sensações. Até mesmo o coração que julgo sempre vazio está cheio. Cheio de coisas que não sei dizer ou entender. Medo, expectativas, vontades, frustração, ciumes. E os tais sapos que engulo faz tudo ficar misturado. A digestão é lenta e dolorosa e mesmo que dure somente um dia, o dia parece ter bem mais que 24 horas quando ela está acontecendo.
Descobri que esses dias são os dias em que mais aprendo. Quando lido com o que não gosto. Quando sou obrigada a tomar uma posição diante do inesperado, um inesperado nem sempre feliz ou gostoso de ser sentido e recebido.
Quando eu respirar fundo e olhar para esses dias que engoli os cururus, vou ver que o veneno que os protege preparou meu estômago para comidas mais potentes, saudáveis e fortes.
Enquanto isso, se vem um sapo, eu engulo. Engulo. As vezes até choro enquanto ele desce rasgando a minha garganta. Mas eu engulo. Engulo e aprendo.

Camila Lourenço