Eu quero a sina de um artista de cinema só pra poder notar o quanto o meu roteiro é mais engraçado, sem cenas marcadas, risos forjados ou beijos ensaiados.

Eu quero um amanhã melhor sem que eu tenha que achar o ontem mais incrível só porque nele havia algum personagem que ainda não havia decidido partir.

Eu quero um riso demorado, gritado, sem medo que a maldade ouça, que o ruim aconteça. Sem a insegurança do “bom demais pra ser verdade”. Sem algum adeus que me faça querer voltar, inflando meus pulmões apenas com a resignação dos que aceitam a vida quando é preciso aceitar e encontram nisso a paz.

Eu quero tomar meu café quente sem medo de queimar a língua, sem medo da dor, só para satisfazer minha vontade juvenil.

Quero a coragem de mudar o mundo voltando ao meu pulso. Eu quero olhar no espelho e me achar bonita mesmo se houver rugas. Quero honrar meus cabelos brancos, vestindo-os de uma coroa que não importa a cor, tem a cor que escolhi viver. Sem arrependimentos, sem angústias pelas águas que a esse rio não tornarão.

Quero honrar minhas conquistas, aprender com as minhas derrotas, dançar as minhas músicas. Ser música mesmo quando o silêncio embalar a escuridão.

Quero me apegar ao que sou de tal modo que a ausência das palavras não me cause nada mais do que sensação de cumplicidade, com a vida, comigo, com meu Deus. Quero desapegar do que sou e do que é de tal maneira que eu me jogue ao novo, abrindo mão de todas as certezas quando for preciso.

Quero expandir o meu Eu criador de tal forma que eu consiga mudar ao menos a minha maneira de ver para os fatos da vida que eu não posso alterar.

Quero abraçar minhas escolhas, aceitar minhas derrotas, embalar minhas renúncias. Quero que a vida seja leve, mesmo tendo a consciência que cada mal ou bem que colhi, foram minhas mãos que atraíram até aqui.

Eu quero o peito inflado de paixão. Eu quero me apaixonar pela vida dia após dia, ser seduzida pelo amor que me balançava as pernas há tão pouco tempo atrás. Eu quero respirar em estado de arrebatamento constante sem que eu precise escapulir o mundo entre os dedos a todo momento só para precisar conquistá-lo novamente.

Eu quero novos começos, com fins que surpreendam mesmo quando parecidos.

Eu quero ser emoção. Não segurar o nó na garganta em momentos de partidas, não me envergonhar das lágrimas salgadas que banharem meus poros, quer seja por alegria ou pelos momentos que eu (re)constatar que eu não posso cercar a vida.

Eu quero ser rio que lava. Chuva que rega, mar que que o infinito beija.

Eu quero o que posso. Eu quero os impossíveis. Eu quero a coragem. eu quero não ter medo do medo.

Eu quero só continuar olhando pra vida com esse olhar bobo de agora, sabendo que a qualquer momento sim, ela ainda pode me guardar a surpresa de um amanhecer que não previ.

 

{Foto: Alexandre Cavarzan}