Pode dar seu voo mais lindo, quero te aplaudir.
As nuvens da fumaça do incêndio que você causou já não mais me impedem de ver.
Sai tateando no escuro, tapando a boca com uma mão e com a outra tentando me firmar em algo que me desse algum rumo de onde estava a porta.
Demorei encontrar a saída…eu estava entretida nos fundos da casa, tinha me animado em conhecer cada pedacinho, e como a empolgação crescia a cada momento, nem notei quando começou o incêndio, só me dei conta quando tudo ao redor já estava destruido e escuro. Ficou difícil respirar, aquela fumaça ardida tornava cada suspiro um tormento. Achei que iria morrer. Apareceram pessoas para me socorrer, mas tiveram que ficar do lado de fora (não havia como entrar) e tive que descobrir a saída sozinha, confiando na lembrança de quando ali entrei e tudo era cor e confiando na minha audição que ouvia as vozes em meio aos ruídos de tudo que era nosso, da nossa história caindo.
Pareceu uma eternidade, e talvez tenha sido, já que esse lance de tempo é relativo. Mas, por fim consegui sair da casa, em ruinas.
Quando sai, vi que todo “meu castelo” estava destruido, reduzido a chamas, cinzas e fumaça. Respirei fundo, e naquele momento, foi meu recomeço.
Sangrei, sofri, prostrei. Alguns me levantaram, (meio que a força). Juro, ao ver tudo no chão, quis morrer junto com o que havia sido construído com tanta dedicação e vontade, mas, sobrevivi.
Aprendi, colocando tijolo por tijolo que eu poderia construir sozinha,e fiz assim, a minha nova casinha. A chave fica sempre bem guardada, alguns entram, mas até agora, somente os amigos ganharam teto permanente. É certo que já ouvi passos na varanda, mas a nenhum consegui deixar entrar de fato.
Refiz a casa, mudei o cabelo, a roupa, a música. Mudei o rumo. A fé oscilou, o ceticismo fez e faz companhia as vezes. Mas tudo bem, eu sobrevivi.
Com o que encontrei de nós nas cinzas, fiz um santuário que era pra ser seu, nosso… mas, com o tempo se tornou o santuário da minha vida, onde recebi os melhores presentes dos últimos anos.
Tudo bem, não há mais lágrima, nem dor, nem raiva. Perdoei a mim, perdoei a você, perdoei a nós.
Hoje quero celebrar seu salto e quero que você voe para o verão mais lindo que sua vida já teve. Leve com você a leveza das nossas risadas, a sensibilidade das nossas conversas, a sinceridade dos nossos sentimentos.Te dou o melhor que tivemos, quero que você seja feliz. Afinal, esse sempre foi o plano: ser feliz!
Eu aprendi andar sozinha e você agora vai voar.
Voe alto,voe muito e encontre o horizonte mais lindo que o céu pode dar.
Já ouço passos na calçada também… talvez dessa vez eu abra a porta… talvez não…não sei. Mas tudo bem, agora eu sei que se o meu castelo ruir de novo, eu tenho forças o suficiente para o reerguer.
Voe, voe alto, voe muito e seja imensamente...feliz!

Camila Lourenço